
ALGUMAS INFORMAÇÕES
- .
- Em Araruama desde 2003, colaborou como redator nos jornais A VOZ DE ARARUAMA, VERDADE, JORNAL ROTA DO SOL e CONTEÚDO. Escreveu artigos para os jornais HORA CERTA, REVISTA REALCE e JORNAL DA CIDADE, e apresentou na Rádio Mar Aberto, o programa de entrevistas FRENTE A FRENTE. Atualmente escreve para o Carapeba e Correio da Cidadania
domingo, 9 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Preparativos
A partir de 2ª feira os organizadores estarão enviando 2 mil emails direcionados exclusivamente para Araruama, independentemente do trabalho de divulgação do site Divulgarte, nosso parceiro, que tem cadastrados em seu mailing mais de 10 mil endereços.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
segunda-feira, 3 de maio de 2010
quarta-feira, 28 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
Apresentação do livro
Não sei por que os outros escrevem. Nem mesmo sei qual o gatilho que, num determinado instante, faz com que as palavras brotem e os textos comecem a ter sentido. Mas sei que é um processo estranho, que envolve mais de uma emoção, e que tem alguma parcela de sobrenatural, já que em muitas das vezes o resultado surpreende até a mim. Assim como também sei que faço pelo desejo de envolver as pessoas com o que escrevo, desperta-lhes o interesse, torná-las cúmplices. E quero acreditar que, apesar de conteúdo simples, meu livro fará bem às pessoas. Pessoas comuns, das que realmente gostam de ler, mas que não o fazem porque não lhes sobra tempo; ou porque a leitura é um hábito caro. E se elas forem comigo até ao final do livro, e no correr das páginas eu conseguir arrancar delas uma lágrima e um sorriso, terei alcançado meu objetivo. E poderei então dizer que valeu a pena.
CARLOS NEY
Apesar de conhecer bem o autor e muitos dos seus artigos e crônicas publicados em quase todos os jornais de Araruama, o livro OS 100 CONTOS DE RÉIS continua sendo uma surpresa para mim. Se eu pudesse defini-lo, diria que são cem livros em um, já que consegue ser engraçado e triste, leve e profundo, delicado e agressivo, poético e místico. E se tivesse de fazer uma pergunta crítica, ela seria, ao final de alguns desses contos: - Por que parou? Parou por quê?
FERNANDO CAMPOS, radialista, apresentador do programa diário ANTENA LIVRE ( Rádio Costa do Sol – AM560)
CARLOS NEY
Apesar de conhecer bem o autor e muitos dos seus artigos e crônicas publicados em quase todos os jornais de Araruama, o livro OS 100 CONTOS DE RÉIS continua sendo uma surpresa para mim. Se eu pudesse defini-lo, diria que são cem livros em um, já que consegue ser engraçado e triste, leve e profundo, delicado e agressivo, poético e místico. E se tivesse de fazer uma pergunta crítica, ela seria, ao final de alguns desses contos: - Por que parou? Parou por quê?
FERNANDO CAMPOS, radialista, apresentador do programa diário ANTENA LIVRE ( Rádio Costa do Sol – AM560)
sábado, 24 de abril de 2010
O Livro

Capa de CLOVIS BRASIL
clovisteatro@hotmail.com
Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica
CARLOS HENRIQUE PIMENTEL
CHP Designer
http://projetolivropronto.blogspot.com/
Revisão
Livro 1 e 2 - ELIZABETH MEIRELLES
Livro 3 - MARA CRISTINA PINTO DE PAIVA
Livro 4 e 5 - DEJANIR CUNHA
terça-feira, 20 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
ARARU NEWS - CARLOS NEY VAI AO CIRCO PT.1
PROGRAMA ARARU NEWS COM A APRESENTAÇÃO DO JORNALISTA CARLOS NEY, NO CIRCO BABILONIA EM ARARUAMA - JANEIRO DE 2009
PROGRAMA ARARU NEWS COM A APRESENTAÇÃO DO JORNALISTA CARLOS NEY.
Fórum de Saúde
PROGRAMA ARARU NEWS COM A APRESENTAÇÃO DO JORNALISTA CARLOS NEY.
Fórum de Saúde
terça-feira, 30 de março de 2010
A CIDADE DAS MULHERES DESPERDIÇADAS
OS 100 CONTOS DE RÉIS
Qual de nós, como Jeremias, jamais “desperdiçou” uma mulher? Na ânsia de produzir descomprometidos instantes, nesses encontros e desencontros da vida, quantos de nós, deslumbrados com as quantidades dos números, não deixamos passar despercebido algum maravilhoso momento? Faz parte da essência masculina, desde que o homo tornou-se erectus, servindo isso de explicação para o fato de que cada um de nós, não importa quando ou por qual motivo, já deixou escapar por entre os dedos desatentos uma grande mulher. Uns, mais sortudos, tiveram uma segunda chance. Outros, na grande maioria, sequer perceberam a perda, ocupados que estavam em garimpar novas pepitas, acabando sozinhos; mesmo que acompanhados. Fazer o quê? Com o passar dos anos, um pouco mais sábios, recorremos à máquina do tempo. Pelo milagre da memória, nos vemos transportados até a Cidade das Mulheres Desperdiçadas. E lá estão elas, lindas como as vimos no momento em que fomos tocados pelos frágeis dedos da sorte, sem que sequer o tenhamos notado. Com a nova sabedoria do hoje, percebemos imediatamente o exato instante em que tomamos a decisão errada. E a dor de sabê-lo é o maior dos castigos. Toda uma imensidão de pequenos e maravilhosos detalhes, agora nos salta aos olhos, naturalmente. A voz, que é pura música, e o suave perfume, para sempre guardado em algum cantinho escuro de nossa memória. Como, em nome de todos os santos, pudemos deixar de perceber algo tão óbvio? Na Cidade das Mulheres Desperdiçadas, moram todas elas. Nos olhos, trazem o carinho que desprezamos. A um aceno nosso, elas vêm, gentis. Mas, como castigo aos injustos, nós podemos vê-las, hoje, lindas e intocadas, da mesma forma que naqueles dias, tantos anos atrás. Por isso as desejamos tanto e tanto.
Elas, no entanto, ao verem em nossos rostos riscadas as marcas do tempo, nos dão um último e breve sorriso, virando-nos as costas para sempre.
Nota do Autor – É feita referência a uma peça publicitária na qual “Jeremias” retorna à “Cidade das Mulheres Desperdiçadas”.
Qual de nós, como Jeremias, jamais “desperdiçou” uma mulher? Na ânsia de produzir descomprometidos instantes, nesses encontros e desencontros da vida, quantos de nós, deslumbrados com as quantidades dos números, não deixamos passar despercebido algum maravilhoso momento? Faz parte da essência masculina, desde que o homo tornou-se erectus, servindo isso de explicação para o fato de que cada um de nós, não importa quando ou por qual motivo, já deixou escapar por entre os dedos desatentos uma grande mulher. Uns, mais sortudos, tiveram uma segunda chance. Outros, na grande maioria, sequer perceberam a perda, ocupados que estavam em garimpar novas pepitas, acabando sozinhos; mesmo que acompanhados. Fazer o quê? Com o passar dos anos, um pouco mais sábios, recorremos à máquina do tempo. Pelo milagre da memória, nos vemos transportados até a Cidade das Mulheres Desperdiçadas. E lá estão elas, lindas como as vimos no momento em que fomos tocados pelos frágeis dedos da sorte, sem que sequer o tenhamos notado. Com a nova sabedoria do hoje, percebemos imediatamente o exato instante em que tomamos a decisão errada. E a dor de sabê-lo é o maior dos castigos. Toda uma imensidão de pequenos e maravilhosos detalhes, agora nos salta aos olhos, naturalmente. A voz, que é pura música, e o suave perfume, para sempre guardado em algum cantinho escuro de nossa memória. Como, em nome de todos os santos, pudemos deixar de perceber algo tão óbvio? Na Cidade das Mulheres Desperdiçadas, moram todas elas. Nos olhos, trazem o carinho que desprezamos. A um aceno nosso, elas vêm, gentis. Mas, como castigo aos injustos, nós podemos vê-las, hoje, lindas e intocadas, da mesma forma que naqueles dias, tantos anos atrás. Por isso as desejamos tanto e tanto.
Elas, no entanto, ao verem em nossos rostos riscadas as marcas do tempo, nos dão um último e breve sorriso, virando-nos as costas para sempre.
Nota do Autor – É feita referência a uma peça publicitária na qual “Jeremias” retorna à “Cidade das Mulheres Desperdiçadas”.
segunda-feira, 29 de março de 2010
A CARTA QUE VOCÊ NÃO RECEBEU
OS 100 CONTOS DE RÉIS
Eu achava que o primeiro dia seria terrível. Depois, vieram os outros. Dias todos iguais, de milhões de horas arrastadas, com suas noites e manhãs emendadas rodopiando em volta de mim como um carrossel. E a porta, afinal de contas, estando sempre ali, como um desenho obsceno, escancarando a saída fácil de um tormento que eu criei para mim. Talvez, só por teimosia eu ia resistindo. Apesar dos pensamentos – meus piores algozes – insistindo em fazer brotar fragmentos de uma vida, cuja felicidade eu não soube proteger. E dos sons e cheiros tão familiares que, em minha cabeça, misturavam sonho e realidade. Como o seu riso, enchendo de música esta sala morta. E o doce perfume dos seus cabelos, a flutuar como um fantasma. Cacos da minha vida, que só foi realmente completa, a partir do instante em que eu encontrei você. Sim, porque eu sempre soube que você era a minha melhor metade. E, por conta disso, é que eu jamais poderei me absolver pelo que fiz. Por isso é que eu devo me agarrar às minhas fraquezas e beber, gota a gota, desse veneno amargo que é a sua ausência. E mesmo que a porta esteja bem ali, e que ela seja a negação das minhas certezas, eu jamais irei até você – você que nunca mereceu minha traição – para pedir que me perdoe. Porque, a certeza de que você iria me perdoaria é que seria, para mim, a maior humilhação. Ter de olhar nos seus olhos claros e ver, ali refletida, toda a minha imensa culpa. E compreender sua tristeza, em saber que eu não sou tão bom quanto você sempre me fez acreditar que eu era. Prefiro assim. Sumir de sua vida, como fumaça. Deixar você acreditar que o meu amor acabou. E que eu sequer tive a decência de lhe dizer adeus.
Eu achava que o primeiro dia seria terrível. Depois, vieram os outros. Dias todos iguais, de milhões de horas arrastadas, com suas noites e manhãs emendadas rodopiando em volta de mim como um carrossel. E a porta, afinal de contas, estando sempre ali, como um desenho obsceno, escancarando a saída fácil de um tormento que eu criei para mim. Talvez, só por teimosia eu ia resistindo. Apesar dos pensamentos – meus piores algozes – insistindo em fazer brotar fragmentos de uma vida, cuja felicidade eu não soube proteger. E dos sons e cheiros tão familiares que, em minha cabeça, misturavam sonho e realidade. Como o seu riso, enchendo de música esta sala morta. E o doce perfume dos seus cabelos, a flutuar como um fantasma. Cacos da minha vida, que só foi realmente completa, a partir do instante em que eu encontrei você. Sim, porque eu sempre soube que você era a minha melhor metade. E, por conta disso, é que eu jamais poderei me absolver pelo que fiz. Por isso é que eu devo me agarrar às minhas fraquezas e beber, gota a gota, desse veneno amargo que é a sua ausência. E mesmo que a porta esteja bem ali, e que ela seja a negação das minhas certezas, eu jamais irei até você – você que nunca mereceu minha traição – para pedir que me perdoe. Porque, a certeza de que você iria me perdoaria é que seria, para mim, a maior humilhação. Ter de olhar nos seus olhos claros e ver, ali refletida, toda a minha imensa culpa. E compreender sua tristeza, em saber que eu não sou tão bom quanto você sempre me fez acreditar que eu era. Prefiro assim. Sumir de sua vida, como fumaça. Deixar você acreditar que o meu amor acabou. E que eu sequer tive a decência de lhe dizer adeus.
SOZINHO
OS 100 CONTOS DE RÉIS
- Solteiro, de novo!
A frase expressando a alegria do momento, apesar de afirmativa, quando ecoa nos cômodos vazios, é devolvida com certo ar de dúvida. Era a minha primeira noite no apartamento, após a separação. Sábado e domingo não contavam, engolidos que foram pelos programas sucessivos, na companhia dos amigos que me restaram, já que até amigos se somam aos itens a serem divididos, quando o casamento termina. Sentado na poltrona que restou, meus pés sentem a falta do confortável acolhimento do monstruoso tapete vermelho. Na dúvida, ficou para ela. Como o quadro absurdamente negro, que ficava ainda mais surrealista sob o foco azulado da luminária. Fora a tevê, a poltrona e a bancada de ferro batido e granito que serve agora de base para o imenso aquário vazio, a sala foi saqueada de tudo que a atravancava. E esta ausência, alguma parte distante de mim registra, é o que mais me incomoda. Sem perceber, enquanto a mente divaga, meus dedos vão dedilhando o controle remoto, zapeando pelos canais, sem me deter em qualquer um deles. Sorrio ao pensar em como isso a enlouquecia. Talvez, a única coisa que a tirava de costumeiro alheamento. Isso e o telefone, no qual ela falava horas seguidas, com toda vivacidade que um dia, num passado por demais distante, me encantou e prendeu. Caminho agora pelos demais cômodos, de repente tão diferentes e frios, sentindo-me intruso em minha própria casa. Abro a geladeira, e uma lasanha de caixa me convida para uma refeição com gosto de papelão e molho de tomate. No aparelho de som, o CD esquecido é o mesmo que ela ouvia, abafando a minha voz que puxava um assunto qualquer, em uma vida passada. Quando o telefone toca, eu corro para ela, desavergonhadamente pronto a começar tudo de novo. Engano. Meu e da moça de voz chorosa, tão ansiosa que teclou errado. Lá fora, a chuva irrompe barulhenta, fazendo escorrer fios caprichosos pela vidraça, como que chorando por mim, as lágrimas que meu peito de homem insiste em ocultar.
- Solteiro, de novo!
A frase expressando a alegria do momento, apesar de afirmativa, quando ecoa nos cômodos vazios, é devolvida com certo ar de dúvida. Era a minha primeira noite no apartamento, após a separação. Sábado e domingo não contavam, engolidos que foram pelos programas sucessivos, na companhia dos amigos que me restaram, já que até amigos se somam aos itens a serem divididos, quando o casamento termina. Sentado na poltrona que restou, meus pés sentem a falta do confortável acolhimento do monstruoso tapete vermelho. Na dúvida, ficou para ela. Como o quadro absurdamente negro, que ficava ainda mais surrealista sob o foco azulado da luminária. Fora a tevê, a poltrona e a bancada de ferro batido e granito que serve agora de base para o imenso aquário vazio, a sala foi saqueada de tudo que a atravancava. E esta ausência, alguma parte distante de mim registra, é o que mais me incomoda. Sem perceber, enquanto a mente divaga, meus dedos vão dedilhando o controle remoto, zapeando pelos canais, sem me deter em qualquer um deles. Sorrio ao pensar em como isso a enlouquecia. Talvez, a única coisa que a tirava de costumeiro alheamento. Isso e o telefone, no qual ela falava horas seguidas, com toda vivacidade que um dia, num passado por demais distante, me encantou e prendeu. Caminho agora pelos demais cômodos, de repente tão diferentes e frios, sentindo-me intruso em minha própria casa. Abro a geladeira, e uma lasanha de caixa me convida para uma refeição com gosto de papelão e molho de tomate. No aparelho de som, o CD esquecido é o mesmo que ela ouvia, abafando a minha voz que puxava um assunto qualquer, em uma vida passada. Quando o telefone toca, eu corro para ela, desavergonhadamente pronto a começar tudo de novo. Engano. Meu e da moça de voz chorosa, tão ansiosa que teclou errado. Lá fora, a chuva irrompe barulhenta, fazendo escorrer fios caprichosos pela vidraça, como que chorando por mim, as lágrimas que meu peito de homem insiste em ocultar.
O RETORNO DA VELHA SENHORA
OS 100 CONTOS DE RÉIS
O táxi levou-a através das tão conhecidas ruas, fazendo com que, milagrosamente, passado e presente se tornassem um só, bem à frente dos seus olhos. Muito pouco havia mudado em cinquenta anos. Agora, a garota que ela foi um dia estava do seu lado, disposta a acompanhá-la nessa viagem tão dolorida. Ela reconheceu, nos olhos assustados, a menina que em segredo namorava o filho do dono da fábrica de tecidos, há tantas vidas atrás. A pequena cidade crescera em volta da imponente fábrica de tecidos, tornando-se parte dela, já que todos os moradores, inclusive seus pais, trabalhavam ali. Eram dias lindos e despreocupados, até que ficou grávida. Aí, tudo mudou, e ela conheceu o medo e a vergonha. Por imposição do pai - o homem mais poderosos da cidade - o rapaz foi estudar na capital. Ela, definitivamente marcada como perdida, e vendo-se como objeto dos gracejos maldosos de toda a cidade, isolou-se em sua casa, tornando-se nervosa e arredia. Tão logo deu à luz um filho, que rapidamente lhe foi tirado dos braços, foi mandada para outra cidade, indo morar com uma tia que sequer conhecia.Surpreendentemente, sua vida começou a mudar ali. Dona de uma beleza que jamais suspeitou, viu abrir-se para ela, nos anos que se seguiram, um mundo de oportunidades que nunca ousou desejar. Um dia, decidiu trocar o emprego de secretária, pela condição de esposa do banqueiro para quem trabalhava. Com a guerra, a economia sofreu um grande revés, obrigando empresas a lançar mão de empréstimos junto aos bancos, para continuarem de portas abertas. Atendendo a um pedido seu, o marido determinou que o banco liberasse créditos para a fábrica de tecidos, hipotecando todos os bens de seu proprietário.
No vencimento da dívida, o banco não renovou a operação, exigindo a imediata quitação da dívida, ou a entrega das propriedades hipotecadas. Com o fechamento da fábrica, a cidade foi morrendo pouco a pouco. E o resultado de tanto ódio, ela, horrorizada, testemunha agora. A pontada de dor no peito, a faz relembrar da sentença do médico. E este passeio pelo passado, com todos os sentimentos que ela vivencia, lhe dá a convicção de que tomou a decisão certa. Usará toda a imensa fortuna que se acumulou no decorrer desses anos, para reabrir a velha fábrica de tecidos. Depois disso, e só depois disso, poderá morrer em paz.
O táxi levou-a através das tão conhecidas ruas, fazendo com que, milagrosamente, passado e presente se tornassem um só, bem à frente dos seus olhos. Muito pouco havia mudado em cinquenta anos. Agora, a garota que ela foi um dia estava do seu lado, disposta a acompanhá-la nessa viagem tão dolorida. Ela reconheceu, nos olhos assustados, a menina que em segredo namorava o filho do dono da fábrica de tecidos, há tantas vidas atrás. A pequena cidade crescera em volta da imponente fábrica de tecidos, tornando-se parte dela, já que todos os moradores, inclusive seus pais, trabalhavam ali. Eram dias lindos e despreocupados, até que ficou grávida. Aí, tudo mudou, e ela conheceu o medo e a vergonha. Por imposição do pai - o homem mais poderosos da cidade - o rapaz foi estudar na capital. Ela, definitivamente marcada como perdida, e vendo-se como objeto dos gracejos maldosos de toda a cidade, isolou-se em sua casa, tornando-se nervosa e arredia. Tão logo deu à luz um filho, que rapidamente lhe foi tirado dos braços, foi mandada para outra cidade, indo morar com uma tia que sequer conhecia.Surpreendentemente, sua vida começou a mudar ali. Dona de uma beleza que jamais suspeitou, viu abrir-se para ela, nos anos que se seguiram, um mundo de oportunidades que nunca ousou desejar. Um dia, decidiu trocar o emprego de secretária, pela condição de esposa do banqueiro para quem trabalhava. Com a guerra, a economia sofreu um grande revés, obrigando empresas a lançar mão de empréstimos junto aos bancos, para continuarem de portas abertas. Atendendo a um pedido seu, o marido determinou que o banco liberasse créditos para a fábrica de tecidos, hipotecando todos os bens de seu proprietário.
No vencimento da dívida, o banco não renovou a operação, exigindo a imediata quitação da dívida, ou a entrega das propriedades hipotecadas. Com o fechamento da fábrica, a cidade foi morrendo pouco a pouco. E o resultado de tanto ódio, ela, horrorizada, testemunha agora. A pontada de dor no peito, a faz relembrar da sentença do médico. E este passeio pelo passado, com todos os sentimentos que ela vivencia, lhe dá a convicção de que tomou a decisão certa. Usará toda a imensa fortuna que se acumulou no decorrer desses anos, para reabrir a velha fábrica de tecidos. Depois disso, e só depois disso, poderá morrer em paz.
A GALINHA DA VIZINHA
OS 100 CONTOS DE RÉIS
Você acha que é pecado passar a mão no alheio? Eu também acho que é. Pelo menos achava, até o momento em que a vi, ruiva e gostosinha, mole no meu quintal. Não a vizinha, é claro, porque esta só apareceu depois, procurando pela galinha dela. De uma para a a outra, passaram-se alguns momentos.
Meus amigos, a carne é fraca. Não a da galinha, é claro, já que uma canja costuma levantar quem está caído. Enquanto eu olhava a bicha (a galinha, porque vou logo avisando que não simpatizo com homem que vira mulher) já sonhando com os apetitosos pratos em que a penosa exercia o papel principal, tocam a campainha. Era aquela outra, a vizinha. Sou péssimo mentiroso. Ela nem se deu ao trabalho de perguntar. Bastou me olhar, e já foi entrando. Minha barriga, sentindo-se traída, roncava furiosamente. Lágrimas de perda desciam pelo meu rosto. Eu jamais teria uma nova chance de me alimentar decentemente. Praga da minha ex-sogra, aquela mocréia, que mesmo depois de ter batido a caçuleta ainda fazia os seus vodus. Amanhã mesmo, ou talvez depois, já que sou meio lento para essas coisas, eu iria acender uma vela na encruzilhada para me livrar do... Fui sacudido do meu momento espiritual pela vizinha – não tem gente que diz que quando o tinhoso não vem manda o secretário? Vinha de mãos vazias. Mentalmente, caí de joelhos ali mesmo, enquanto sinos celestiais repicavam festivamente, e um coro de anjinhos rosados entoava o cântico da Aleluia. Ela não achara a galinha, mas, pelo olhar venenoso que me lançou, eu vi que ela sabia. Hoje, tanto tempo passado, eu e a Djenane (a galinha ruiva, lembra?) ainda damos muita risada quando lembro do assunto. Imagine só que a danada (a galinha), assim que viu a peste (a vizinha), escondeu-se no meio das traquitanas, só para não ser encontrada. É que depois a filha (minha ex) seguindo os conselhos da mãe dela, escafedeu-se mundo a fora, parei de me ocupar com os detalhes do trivial. Deixei o mato crescer em volta da casa, parei de roçar a terra, e abandonei os biscates que me rendiam um bom dinheiro, já que sou um excelente faz-tudo. As traquitanas então foram se acumulando no barracão, até que me voltasse o ânimo; ou a Juraci. Mas agora tudo mudou. Para escapar dos olhos vigilantes da vizinha (que eu peguei mais de uma vez espichando o pescoço por cima do muro, coloquei a Djenane para dentro de casa. E como tinha de por comida na mesa para nós dois, eu voltei a fazer os biscates. Nas poucas horas que tenho de folga (já falei que sou um excelente faz-tudo?) vou dando um trato na terra, que já está até produzindo alguns legumes e umas verdurinhas. Da casa cuida a Djenane, prendada como ela só. Quer saber da vizinha? Mudou-se. Foi para outra cidade. Se eu sinto falta da Juraci? Nem lembro mais da cara daquela galinha (desculpe, querida, é só modo de falar).
Você acha que é pecado passar a mão no alheio? Eu também acho que é. Pelo menos achava, até o momento em que a vi, ruiva e gostosinha, mole no meu quintal. Não a vizinha, é claro, porque esta só apareceu depois, procurando pela galinha dela. De uma para a a outra, passaram-se alguns momentos.
Meus amigos, a carne é fraca. Não a da galinha, é claro, já que uma canja costuma levantar quem está caído. Enquanto eu olhava a bicha (a galinha, porque vou logo avisando que não simpatizo com homem que vira mulher) já sonhando com os apetitosos pratos em que a penosa exercia o papel principal, tocam a campainha. Era aquela outra, a vizinha. Sou péssimo mentiroso. Ela nem se deu ao trabalho de perguntar. Bastou me olhar, e já foi entrando. Minha barriga, sentindo-se traída, roncava furiosamente. Lágrimas de perda desciam pelo meu rosto. Eu jamais teria uma nova chance de me alimentar decentemente. Praga da minha ex-sogra, aquela mocréia, que mesmo depois de ter batido a caçuleta ainda fazia os seus vodus. Amanhã mesmo, ou talvez depois, já que sou meio lento para essas coisas, eu iria acender uma vela na encruzilhada para me livrar do... Fui sacudido do meu momento espiritual pela vizinha – não tem gente que diz que quando o tinhoso não vem manda o secretário? Vinha de mãos vazias. Mentalmente, caí de joelhos ali mesmo, enquanto sinos celestiais repicavam festivamente, e um coro de anjinhos rosados entoava o cântico da Aleluia. Ela não achara a galinha, mas, pelo olhar venenoso que me lançou, eu vi que ela sabia. Hoje, tanto tempo passado, eu e a Djenane (a galinha ruiva, lembra?) ainda damos muita risada quando lembro do assunto. Imagine só que a danada (a galinha), assim que viu a peste (a vizinha), escondeu-se no meio das traquitanas, só para não ser encontrada. É que depois a filha (minha ex) seguindo os conselhos da mãe dela, escafedeu-se mundo a fora, parei de me ocupar com os detalhes do trivial. Deixei o mato crescer em volta da casa, parei de roçar a terra, e abandonei os biscates que me rendiam um bom dinheiro, já que sou um excelente faz-tudo. As traquitanas então foram se acumulando no barracão, até que me voltasse o ânimo; ou a Juraci. Mas agora tudo mudou. Para escapar dos olhos vigilantes da vizinha (que eu peguei mais de uma vez espichando o pescoço por cima do muro, coloquei a Djenane para dentro de casa. E como tinha de por comida na mesa para nós dois, eu voltei a fazer os biscates. Nas poucas horas que tenho de folga (já falei que sou um excelente faz-tudo?) vou dando um trato na terra, que já está até produzindo alguns legumes e umas verdurinhas. Da casa cuida a Djenane, prendada como ela só. Quer saber da vizinha? Mudou-se. Foi para outra cidade. Se eu sinto falta da Juraci? Nem lembro mais da cara daquela galinha (desculpe, querida, é só modo de falar).
A FACE DO ÍDOLO
OS 100 CONTOS DE RÉIS
A jovem médica me olha fixamente deixando, sem o menor pudor, transparecer sua impotência, após haver utilizado todas as suas técnicas de abordagem. Talvez, não sei dizer ao certo, alguma pequena fração daquele que um dia fui, tenha se condoído dela. Mas, agora, é muito tarde. Mesmo sem querer, meu pensamento se volta para aquela manhã, na sala de espera do dentista, quando vi pela primeira vez, ilustrando um texto sobre antigos costumes tribais, a face daquele deus pagão, sem nome e sem origem determinada. Não sei dizer por qual motivo rasguei a página, e a escamoteei com dedos rápidos de criminoso. Em minha casa, uma parede branca estava reservada para a cópia de uma tela impressionista, pintada por um ainda obscuro gênio florentino. A partir daí, passei a dedicar minhas horas ociosas a reproduzir a gravura, ampliando-a, naquela parede. Conforme os traços iam ocupando os quadrículos, a face do ídolo ia se tornando cada vez mais nítida e assustadora. Diferentemente do tosco modelo, a figura que agora eu contemplava, mesmo ainda inacabada, passava a sensação de ter vida própria. Agora, eu estava totalmente envolvido com minha obra. Num crescendo, eu passava cada vez mais tempo com ela, fazendo menos importantes todas as outras obrigações dos meus dias. De repente, manhãs e noites passaram a se misturar até que, finalmente, estava terminado. Era impossível deixar de ver que, à minha frente, estava uma figura viva; com alma. Nos olhos, a maldade estava ali retratada de tal forma, que poderia ser tocada. Um cansaço imenso tomou conta de mim. Ali mesmo eu me deitei e adormeci. Repentinamente, uma selva diferente de tudo quanto eu já havia visto, vibrante de cores e de sons, me cercava e oprimia. Prisioneiro dentro dos olhos do ídolo, eu via um quadro de sofrimentos e torturas indescritíveis, que eu podia sentir em meu corpo. Hipnotizado pelo ritmo ensurdecedor dos tambores, acompanhei o suplício de homens, mulheres e crianças, comandado pelos sacerdotes da tribo, expostos a toda sorte de abusos e agressões, como tributo ao ídolo. E, pior de tudo, eu podia perceber de alguma forma a satisfação daquela criatura. Ao acordar, não sei quantos dias depois, e ainda trêmulo pelas emoções vividas, senti um medo terrível. Eu soube com a maior clareza possível, que estava dando vida àquela forma demoníaca. Se ficasse em minha casa, seria por ele aprisionado, passando a ver e a sentir através dos seus olhos, toda a imensa maldade que o alimentava. Como derradeiro ato de coragem, abandonei tudo. Meus dias e minhas passaram a se resumir em uma eterna fuga. Até que vim parar aqui, neste manicômio, conhecendo, depois de tanto tempo, a paz que já considerava perdida. Uns após outros, médicos passaram a me examinar, buscando arrancar alguma palavra ou fato passado, tentando ajudar-me a voltar a ser o que um dia eu fui. Pelo bem de todos nós, isso não pode acontecer.
A jovem médica me olha fixamente deixando, sem o menor pudor, transparecer sua impotência, após haver utilizado todas as suas técnicas de abordagem. Talvez, não sei dizer ao certo, alguma pequena fração daquele que um dia fui, tenha se condoído dela. Mas, agora, é muito tarde. Mesmo sem querer, meu pensamento se volta para aquela manhã, na sala de espera do dentista, quando vi pela primeira vez, ilustrando um texto sobre antigos costumes tribais, a face daquele deus pagão, sem nome e sem origem determinada. Não sei dizer por qual motivo rasguei a página, e a escamoteei com dedos rápidos de criminoso. Em minha casa, uma parede branca estava reservada para a cópia de uma tela impressionista, pintada por um ainda obscuro gênio florentino. A partir daí, passei a dedicar minhas horas ociosas a reproduzir a gravura, ampliando-a, naquela parede. Conforme os traços iam ocupando os quadrículos, a face do ídolo ia se tornando cada vez mais nítida e assustadora. Diferentemente do tosco modelo, a figura que agora eu contemplava, mesmo ainda inacabada, passava a sensação de ter vida própria. Agora, eu estava totalmente envolvido com minha obra. Num crescendo, eu passava cada vez mais tempo com ela, fazendo menos importantes todas as outras obrigações dos meus dias. De repente, manhãs e noites passaram a se misturar até que, finalmente, estava terminado. Era impossível deixar de ver que, à minha frente, estava uma figura viva; com alma. Nos olhos, a maldade estava ali retratada de tal forma, que poderia ser tocada. Um cansaço imenso tomou conta de mim. Ali mesmo eu me deitei e adormeci. Repentinamente, uma selva diferente de tudo quanto eu já havia visto, vibrante de cores e de sons, me cercava e oprimia. Prisioneiro dentro dos olhos do ídolo, eu via um quadro de sofrimentos e torturas indescritíveis, que eu podia sentir em meu corpo. Hipnotizado pelo ritmo ensurdecedor dos tambores, acompanhei o suplício de homens, mulheres e crianças, comandado pelos sacerdotes da tribo, expostos a toda sorte de abusos e agressões, como tributo ao ídolo. E, pior de tudo, eu podia perceber de alguma forma a satisfação daquela criatura. Ao acordar, não sei quantos dias depois, e ainda trêmulo pelas emoções vividas, senti um medo terrível. Eu soube com a maior clareza possível, que estava dando vida àquela forma demoníaca. Se ficasse em minha casa, seria por ele aprisionado, passando a ver e a sentir através dos seus olhos, toda a imensa maldade que o alimentava. Como derradeiro ato de coragem, abandonei tudo. Meus dias e minhas passaram a se resumir em uma eterna fuga. Até que vim parar aqui, neste manicômio, conhecendo, depois de tanto tempo, a paz que já considerava perdida. Uns após outros, médicos passaram a me examinar, buscando arrancar alguma palavra ou fato passado, tentando ajudar-me a voltar a ser o que um dia eu fui. Pelo bem de todos nós, isso não pode acontecer.
A DAMA DO GUARDA-SOL AZUL
OS 100 CONTOS DE RÉIS
Era uma daquelas manhãs gloriosas em que a natureza resolve exibir-se por inteiro, abusando das cores e dos perfumes, talvez para lembrar aos mais distraídos, que a vida é bela e merece ser saboreada sem pressa. Acho que estava neste espírito quando a vi, caminhando com passos miúdos, e um grande sorriso a iluminar seu rosto. Surpreendentemente, as pessoas que por ela cruzavam, sorriam também, tornando-se cúmplices daquele momento, e gratas por ela despertar-lhes essa alegria adormecida. Num impulso, contrariando a rotina desde sempre obedecida, resolvi mudar meu percurso, deixando de lado a série de intermináveis compromissos, antes inadiáveis. Quem seria aquela mulher tão comum, e ao mesmo tempo tão especial, que parecia trazer consigo toda a magia de uma nova estação?
Mais de perto, ela era assombrosamente igual às outras tantas senhoras, um pouco tias, um pouco avós da gente, e embora se vestisse com todas as cores do arco-íris – desde os tênis alaranjados com meiões vinho, passando pela bermuda verde-limão, até a blusa de malha amarela – era o imenso guarda-sol azul, com estrelas brancas, que ela rodava na mão enquanto ia caminhando, que dava o toque fantástico. Isso porque, talvez pelo efeito do sol, eu acho, as estrelas iam sendo arremessadas de encontro às pessoas que por ela passavam, lembrando as bolhas de sabão da minha infância, que brotadas do meu sopro, iam procurar novos mundos, impelidas pela brisa e pelo sonho. Como o ser encantado que eu logo percebi que era, minha fadinha sumiu num desses cruzamentos. Dela ficou apenas um leve perfume, quase uma sensação, que me acompanhou ainda por um longo tempo.
Era uma daquelas manhãs gloriosas em que a natureza resolve exibir-se por inteiro, abusando das cores e dos perfumes, talvez para lembrar aos mais distraídos, que a vida é bela e merece ser saboreada sem pressa. Acho que estava neste espírito quando a vi, caminhando com passos miúdos, e um grande sorriso a iluminar seu rosto. Surpreendentemente, as pessoas que por ela cruzavam, sorriam também, tornando-se cúmplices daquele momento, e gratas por ela despertar-lhes essa alegria adormecida. Num impulso, contrariando a rotina desde sempre obedecida, resolvi mudar meu percurso, deixando de lado a série de intermináveis compromissos, antes inadiáveis. Quem seria aquela mulher tão comum, e ao mesmo tempo tão especial, que parecia trazer consigo toda a magia de uma nova estação?
Mais de perto, ela era assombrosamente igual às outras tantas senhoras, um pouco tias, um pouco avós da gente, e embora se vestisse com todas as cores do arco-íris – desde os tênis alaranjados com meiões vinho, passando pela bermuda verde-limão, até a blusa de malha amarela – era o imenso guarda-sol azul, com estrelas brancas, que ela rodava na mão enquanto ia caminhando, que dava o toque fantástico. Isso porque, talvez pelo efeito do sol, eu acho, as estrelas iam sendo arremessadas de encontro às pessoas que por ela passavam, lembrando as bolhas de sabão da minha infância, que brotadas do meu sopro, iam procurar novos mundos, impelidas pela brisa e pelo sonho. Como o ser encantado que eu logo percebi que era, minha fadinha sumiu num desses cruzamentos. Dela ficou apenas um leve perfume, quase uma sensação, que me acompanhou ainda por um longo tempo.
terça-feira, 9 de março de 2010
A ARCA DA BICHARADA
OS 100 CONTOS DE RÉIS
Esqueça tudo o que você já ouviu sobre a história de Noé e sua arca. Eu vou contar de que forma as coisas realmente aconteceram. Noé, que já era um cara meio estranho, piorou muito depois de um sonho que teve. Sem mais nem menos, resolveu construir uma banheirona no quintal da casa dele. Ninguém mais pregava olho com tanta bateção de martelo e gemido de serrote. Aí começaram os misteriosos desaparecimentos de bichinhos da vizinhança, sempre aos casais.
Quando começou a chover, Noé já estava preparado. Assim que anoiteceu, arrombou as jaulas e pegou “emprestados” todos os animais do jardim zoológico. E tão logo amanheceu o novo dia, a arca de Noé, lotada de bichos de todas as espécies, flutuava no marzão que se formara, iniciando a grande viagem.
A história terminaria igual, se não fossem os veadinhos. É que o velho Noé já estava meio cegueta, e na pressa de completar logo o estoque, não reparou que nenhum dos dois veadinhos era assim tão macho. E já na primeira semana a dupla dinâmica fez o maior auê. Davam piti, faziam escândalo, ameaçavam se jogar ao mar.
O velho Noé bem que tentou, mas a elefanta, desconfiada que o maridão andava enfiando a tromba onde não devia, bateu o pé. E no que ela bateu o pé, quase afunda aquela merda. Então, não houve outro jeito. Colocados numa canoinha, os dois veadinhos viram a arca sumir no horizonte. Mas, como veado é bicho de sorte, no dia seguinte eles estavam pisando em terra firme.
Da mesma forma que a história original não explica de que forma Noé conseguiu construir uma arca, senão havia madeireira e nem loja de ferragens, eu não vou perder meu tempo contando como os dois veadinhos se multiplicaram. Mas, sem dúvida, esta é uma explicação tão boa como qualquer outra para o fato de que, por aqui, veado é bicho que não falta.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Entre o fato e a versão
Ao decidir publicar neste blog os meus artigos e as crônicas políticas e de costumes, grande parte deles publicadas em nossos jornais de Araruama-RJ, minha intenção é preservar alguns momentos que, por um ou outro motivo, mereceram ser registrados.
O redator (articulista ou cronista) age como um fotógrafo, eternizando na página escrita o fato através da sua versão. Geralmente, e este é o meu caso, o gatilho é a indignação. E, debochado convicto, mergulho a pena no ridículo, carregando nas tintas ao me deparar com o medíocre ou o autoritário, na tentativa quase sempre inglória de separar um do outro.
Infelizmente está ainda distante da compreensão da grande maioria a importância que tem o jornal (entendendo-se aqui todas as formas de mídia) na construção do processo democrático (dentro do conceito de que todo poder emana do povo e apenas em seu nome deve ser exercido) e até no aperfeiçoamento do ser humano e de sua relação com o mundo em que vive.
Por outro lado, e isso é lamentável, assim como outro qualquer empreendimento comercial - que tem como meta a busca do lucro - o jornal, via de regra, manipula a notícia, adequando-a a sua “linha editorial”. E esquece que, ao fazê-lo, torna-se um censor da verdade e cúmplice do retrocesso.
Neste universo, cabe então ao cronista desconstruir o fato que se tornou “notícia” (passou pelo crivo comercial do jornal), e recontá-lo na forma de “notícia” que virou fato.
É isso que eu venho tentando fazer, na convicção de que um jornal quando é só papel, envergonha quem o escreve e ofende quem o lê.
VOCÊ CONHECE O CARLOS NEY?
Considero o Carlos Ney o melhor jornalista em atividade no cenário araruamense, em parte por conta da independência em analisar o fato político e seus personagens, sem jamais descambar para o mau gosto ou a politicagem barata. E a qualidade textual é indiscutível. Quem, como eu e outros tantos, lê os nossos jornais com olhos críticos de quem busca aprender o ofício, já percebeu em quaisquer de seus artigos ou crônicas o primor em suas palavras aliados à sagacidade do analista/artista.
Segundo ele próprio em um de seus textos, existem jornalistas e Jornalistas. Até então eu acreditava que essa distinção era vista apenas a partir do espectro do diploma universitário: os formados e os não-formados. Conhecendo o seu trabalho, me vi obrigado a reformular o (pré) conceito.
O Carlos Ney não é jornalista formado! Mas é informado e principalmente, inconformado. Princípios básicos dos grandes profissionais da área, maiores que qualquer diploma. Por isso, ele sempre esteve léguas à frente da grande maioria.
Sua recente empreitada literária, “Os cem contos de réis”, sintetiza o que o subtítulo afirma, “vale por toda uma vida”. Seus contos de réis alcançam uma cotação maior do que qualquer moeda.
Com ele, inclusive, passei por um “causo” que vai sempre fazer parte da minha história profissional. Em minha primeira experiência como jornalista (eu então começava minha faculdade de Comunicação), fui convidado por Ney a participar de uma entrevista coletiva em seu programa de rádio, “Frente a frente”. Apesar da tremedeira causada pela inexperiência, lá fui eu representar a recém-criada AraruTV. Um colega (muy amigo!) questionou a validade da minha participação na rodada de perguntas (um soco no estômago àquela altura do campeonato), o que foi prontamente rebatido pelo entrevistador, que soube reconhecer em mim algum lampejo de jornalista, num dos pouquíssimos contatos que tivemos até então e, apostando nisso, me garantiu a oportunidade. Modéstia à parte, fiz o meu trabalho e não deixei à desejar.
Valeu Carlos Ney, e boa sorte!
Marcos Serpa
Jornalista - AraruTV
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Claro que conheço, não só eu, como todos os que acompanham suas crônicas nos jornais da Cidade de Araruama. Elas abordam os acontecimentos, às vezes de forma mordaz, outras irônicas e até algumas recheadas de romantismo. Ney é um publicitário e jornalista que através de seu trabalho sempre foi referência para os colegas de profissão.
É um observador e critico do cotidiano, com isso consegue conduzir o leitor a se redescobrir, e através de seu texto ele pode até se reconhecer como o personagem central do tema, diria que é um mágico da palavra, porque sua forma de escrever desnuda o fato e mostra uma outra interpretação, que normalmente não enxergamos.
Não tenho a menor dúvida que seu livro OS 100 CONTOS DE RÉIS será um sucesso, como sempre foram os projetos de sua autoria.
Sim, eu conheço Carlos Ney e o admiro pela sua inteligência, e recomendo a leitura de seu livro.
Léo Anelhe
Jornalista profissional MT JP 24172, Diretor do Jornal Rota do Sol.
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Conheci o Carlos Ney quando eu ainda assinava a coluna social do jornal NOTÍCIA LOCAL, e ele começava a colaborar com A VOZ DE ARARUAMA, levado pelo Gil GT. E vez por outra, no correr dos anos, nos encontrávamos em eventos políticos ou sociais. Depois, por algum tempo, fomos vizinhos de coluna no JORNAL O CIDADÃO. Sempre gostei muito do estilo de sua escrita, e da maneira como ele analisa e comenta o fato político. Por conta desta admiração, não deixarei de estar presente ao lançamento de seu livro, levando o meu abraço a esse amigo.
Ulla Nogueira
Colunista social do jornal HORA CERTA
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Gostamos muito de suas crônicas. São leves, de fácil leitura e agradáveis de ler. Demos muita risada com algumas delas e nos divertimos nas demais. Bem escritas como o senhor deseja, não se tem vontade de parar de ler.
Sr. Carlos Ney, agradecemos penhoradas a gentileza e na oportunidade estamos lhe enviando uma revista rotária (ROTARY CLUB DO BRASIL) para sua avaliação. Outrossim, gostaríamos de convidá-lo para a última reunião do mês, ocorrendo a mesma no dia 28 do mês corrente, às 20:30 horas, na Casa da Amizade.
Maria Níobe Santos Rego
Hellé Santos Henriques
Rotary Club de Araruama
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Conheci Carlos Ney, em passagem rápida, e nossos contatos se desenvolveram no período que estive como gestor municipal.
De lá pra cá, temos passado horas não só conversando sobre a cidade, como também sobre cultura, ora trocando idéias, ora revendo conceitos e formulando propostas.
De repente, ele aparece como escritor e ganho dele um conto, de um clima cinzento e interessante.
Agora, entro em contato com outros contos. São contos interessantes onde o cinismo, a alegria e a crueza estão presentes e quando a poesia, a acidez e o humor se misturam servidos numa mesma dose.
Ney tira do cotidiano os seus personagens e do dia a dia constrói a sua escrita, uma escrita onde homens que se odeiam querem virar anjos, onde o amor e a bestificação se tornam sinônimos, onde as esperanças são as primeiras que morrem e a esperteza é o grande elemento para a sobrevivência.
A escrita de Ney surpreende não só pela forma mas pelos seus resultados: sua forma é clara e concisa e nos envolve rapidamente, assim como rápida e lampejante é a maioria de suas histórias. Isso tudo resulta numa leitura extremamente agradável.
Acredito que seja essa uma das funções da leitura – trazer o prazer do ato, uma companhia, uns óculos para ajudar a olhar o mundo nos fazendo rever as nossas humanidades, valores e posturas.
Falando das tensões, das neuroses, das loucuras e perdas do nosso tempo e tocando, sempre, o caos que nos envolve, os nossos nós, Ney nos presenteia com uma obra concreta, que está à nossa frente para ser degustada sem medo de não ser entendida, mesmo que tenha um sabor bastante amargo.
Ricardo Adriano
Subsecretário de Cultura de Araruama
19 de março de 2010
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Polêmico, pontual, inteligente nas suas condutas, conhecedor das mídias que compõem a nova literatura araruamense. Este é o Carlos Ney que se lança como autor de OS 100 CONTOS DE RÉIS. E Araruama precisa desta nova dinâmica, já que há muito não temos vivenciado momento tão importante para mexer com a prosa, o verso, a rima, ou nada disso que ele escreveu, noticiou e apresentou na rádio e tv local (AraruTV). Curioso e ansioso, espero OS 100 CONTOS DE RÉIS, como lançamento de mais uma obra do comunicólogo, que agora passaremos a conhecer em sua versão OS 100 CONTOS DE RÉIS
Célio Pimentel
Historiador, documentarista e editor do Jornal HORA CERTA,
22 Março 2010
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Carlos Ney, em sua coletânea de contos, nos desperta do inconsciente coletivo.
Traduz, em linguagem simples e dinâmica, o cotidiano mágico do mundo atual.
Podemos sentir o hálito crítico do autor, através dos personagens.
Cem contos de réis é um alimento líquido para as crianças e sólido para os adultos. Recomendo para as escolas.
Silvio Martins
Empresário
29 de março de 2010
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Falar de Carlos Ney é algo muito complexo. Ele não é uma pessoa comum, dessas que a gente esbarra toda hora pelos caminhos da vida, apesar dele se disfarçar muito bem atrás dos seus óculos.
Conheci Carlos Ney há cerca de seis anos e desde então nos tornamos amigos, e eu sua fã. Suas crônicas que, hora faz sorrir, hora faz temer, fazem de Carlos Ney um misto de Edgard Alan Poe com Luiz Fernando Veríssimo. Ele não se detêm apenas a um estilo, não tem como defini-lo e talvez seja esse o seu diferencial, a diversidade de estilos. No livro “Os 100 Contos de Réis” o leitor terá o privilégio de conhecer um pouco do universo criado por Carlos Ney. No dia 14 de maio às 19h no salão Iconográfico do Teatro Municipal de Araruama estarei prestigiando o meu querido amigo nessa sua nova empreitada. Como costumamos saudar em Teatro, muita “MERDA” meu amigo!
Jaida Mundim
Produtora Cultural, vice-presidente da Associação Coletivo Cultural Araruama, atriz, colunista do jornal A Voz de Araruama e divulgadora
31 de março de 2010
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Fui apresentado ao Carlos Ney pelo amigo comum, Urias Ribeiro Bílio e aos poucos, à medida que descobríamos bastante afinidade entre o nosso modo de pensar, brotou uma amizade que tende a crescer cada vez mais.
Por isso e por haver sido o primeiro a ler sua obra, torno-me suspeito para avaliá-la; além de me faltar qualificação para tanto. Mas, mesmo assim, sem a pretensão de emitir juízo de valor sobre ela, ouso expressar minha opinião:
“O que determina a existência de um livro é, em princípio, a sensação experimentada por alguém que tem consciência de que a literatura é um dos mais sólidos elementos de construção social.
Essas crônicas certamente – sobretudo pela capacidade do autor de interpretar os fatos corriqueiros da vida, nos fazem – independente de nossa vontade - divagar pelo terreno da imaginação como se realidade fosse.
Ao fugir ou enfrentá-la, não como figura abstrata de retórica, defende, de modo sutil, a tese de que a vida humana seja a fusão de pessoas e coisas numa mesma existência. A sua veia irônica não vacila diante de nenhum estereótipo literário, vive mais da inspiração do que da técnica, é espontaneamente pessoal.
Seus personagens, os enredos que se desenvolvem em torno de variados ambientes sociais exibem a figura de um homem sobre o qual, qualquer tentativa de balizar seus pensamentos encontrará forte oposição.
O espírito crítico brota inconscientemente, seu estilo de criação é instintivo, cadencia o processo que autentica uma absoluta irreverência como liberdade de expressão”.
Walter B. Cintra
Sociólogo e professor.
08 de abril de 2010
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O que falar sobre Carlos Ney, pessoa de tantos predicados que seria longo descreve-los, mas me lembro da primeira vez que nos encontramos, foi na redação do Jornal "a Voz de Araruama" e ele vinha com idéias novas o que deixava muitos com uma certa desconfiança,mas o que me impressionou foi o grau de sua cultura e inteligência ali comecei a admira-lo o que faço até hoje, meus parabéns meu amigo por mais esta vitória, deixo prá ti um poema que tem muito de nossa amizade. Saudações TRICOLORES
Armando Meirelles
13 de abril de 2010
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Carlos Ney é dotado de privilegiada inteligência e de um senso crítico aguçado. Suas crônicas – muitas delas publicados em jornais de Araruama, conseguem exprimir e traduzir, com boa dose de humor, toda situação vivida no nosso cotidiano.
Como radialista, é capaz de tirar leite de pedra, ao fazer cada um falar o que não quer, graças a sua sutileza no jogo das palavras.
Falar de Carlos Ney não é uma tarefa fácil, mesmo sendo eu uma das primeiras pessoas com quem ele fez amizade, em Araruama, pois homens com suas qualidades, hoje, são raros.
Como analista político, ele marcou sua passagem através dos nossos jornais, e mesmo os que dele discordaram, tiveram de levar em conta os seus pontos de vista.
E não posso me esquecer do excelente profissional de marketing que ele é.
Seu livro, com toda certeza, irá nos enriquecer, culturalmente, politicamente e socialmente.
Meu amigo Carlos Ney, sinto-me honrado em fazer parte do seu seleto quadro de amigos, e lisonjeado por dizer a todos do quanto é bom tê-lo como amigo da família Madruga Mauro.
Maurício Madruga Mauro
Presidente da SOAPRAS
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